QUANDO TEVE A IDEIA DE INVENTAR A COR DA PAIXÃO, DEUS INVENTOU O VERMELHO E, COM ESSA COR, PINTOU NOSSOS CORAÇÕES... (da amiga e colorada Rosane)

sábado, 21 de janeiro de 2012

D'ALESSANDRO: "NÃO SEI AINDA SE VOU..."


Em meio aos companheiros, risos e brincadeiras. Sozinho, semblante fechado, sério e concentrado. A manhã de D'Alessandro nesta sexta-feira no Beira-Rio mostra o jogador como poucos viram nestes quatro anos em Porto Alegre. Em vez da preocupação com o jogo contra o Once Caldas, primeira etapa da busca pelo tri da Libertadores, competição que o consagrou melhor da América em 2010, algo parecia perturbar o argentino — a iminente despedida do clube onde fez história, balançado por um contrato de dois anos e uma proposta de 10 milhões de euros oferecidos pelos chineses do Shanghai Shenhua.



Os trabalhos da manhã começaram pouco depois das 9h. Na tradicional roda de bobinho, lá estava o gringo, sorriso no rosto por voltar a fazer aquilo que nasceu para fazer: jogar futebol, como estampava a camisa que vestia ontem. A cada toque do companheiro para não deixar que o "bobo" pegasse a bola, os cerca de 30 torcedores que assistiam aos trabalhos escorados na tela do suplementar ouviam o incentivo firme e forte do argentino: "não deixa, não deixa", "protege, protege", dizia o camisa 10. E a bola rodava de um lado a outro sem que os jogadores do círculo perdessem o controle dela. Por três vezes, D'Alessandro teve de ser o "ladrão" da brincadeira. Ficou no meio da roda por menos de 30 segundos, de tanta gana com que corria atrás da redonda.

O coletivo durou cerca de 40 minutos. O primeiro treino com bola de D'Alessandro após a lesão que o tirou da estreia do Gauchão, na vitória contra o Novo Hamburgo, mostrou algo incomum nestes quatro anos do camisa 10 no Beira-Rio: figurar no time de baixo, entre os reservas. Mesmo assim, o argentino atuou com desenvoltura: correu, fez cruzamentos, cobrou escanteios. Após uma dividida com Elton se agaixou e pôs a mão no tornozelo direito. O volante, preocupado, procurou D'Alessandro para um pedido de desculpas e para conferir se o companheiro estava bem. O abraço de D'Ale tranquilizou o garoto de 21 anos.


Bate-papo com Dorival e conversa com torcedora
Trabalho encerrado no suplementar A. D'Alessandro vai à casamata, pega um copo d'água e fica em silêncio. Tira o colete e anda de um lado a outro. Bebe a água de forma pausada e não fala com ninguém. Apenas pergunta ao auxiliar técnico Ivan Izzo, em gestos com as mãos, se o treinamento estava acabado. Com a resposta positiva, pensa em deixar o local em direção ao vestiário. Olha para o campo ao lado e vê os companheiros, suados com os trabalhos físicos com o preparador Flávio Soares. Dá meia volta e se junta a Guiñazu, Nei, Damião, Tinga, Dagoberto, Oscar e os outros titulares no suplementar B. Para. Observa. Tudo em silêncio.

Até que Dorival Jr. puxa o gringo pelo braço para uma conversa que vai das 10h10min às 10h31min: "vem para cá", conduz o treinador. O bate-papo tem frases curtas. Mas percebe-se, de longe, o argentino sempre sério. Dorival, vez ou outra, sorri. Abre os braços e se espreguiça na cadeira da casamata. O gringo balança a cabeça, leva as mãos ao rosto.

D'Alessandro deixa o suplementar com os companheiros. O jovem Romário, promessa da zaga, a seu lado. É parado por uma torcedora: "Fiquei triste de saber que você vai embora", diz ela, observada pela filha. "Não sei ainda se vou", responde o camisa 10, para receber um elogio da fã: "Tu és muito simpático, viu?". Ele sorri, volta a caminhar em direção ao vestiário. É abordado novamente. Desta vez, é um senhor que pede um autógrafo para que D'Ale assine uma tampa de garrafa — sim, uma tampa branca de garrafa de refrigerante. Até isso os torcedores querem que o craque eternize. Ele aceita, sem pestanejar.
O argentino deixa o Beira-Rio às 11h1min. Despede-se dos seguranças e funcionários da recepção do vestiário Frederico Arnaldo Ballvé e, como ontem, parte em silêncio em direção ao seu BMW. No vestiário, alguns companheiros preparam-se para o almoço, descanso e o treino programado para a tarde. Entre a torcida que observa o veículo sair do estádio, fica a expectativa de um improvável anúncio de permanência e, talvez, a emoção de terem visto o último treino do ídolo no Beira-Rio.


Nenhum comentário: